sábado, 22 de fevereiro de 2014

Guiana Francesa

Com tripulação brasileira, a pequena e última balsa do dia me levou de Albina, no Suriname para Saint Laurent du Maroni, na Guiana Francesa, em menos de vinte minutos sobre o Rio Maroni. Ao chegar na imigração francesa, apresentei o passaporte com o visto (a Guiana Francesa é o único país da América do Sul que exige visto, independentemente de quantos dias você vá permanecer no país). O policial examinou, carimbou o passaporte e desejou boa viagem (em francês, é claro. Estranhei e indaguei pela aduana pois precisava fazer a internação da moto. Ele disse que não era necessário, mas ainda assim, procurei a aduana. Outra policial me atendeu, examinou o passaporte e disse que não era necessário mais nada. Basta seguir viagem. Estranhei, mas obedeci (veja a razão abaixo. E, aproveitando, recomendou cuidado caso eu fosse pernoitar na cidade pois havia muitos assaltos e recomendou um hotel com garagem.
Como ainda havia sol, decidi ganhar tempo e rodar um pouco mais naquele dia.
Assim, agora pela mão direita, segui viagem até Kourou, a 200 km da fronteira e onde cheguei por volta das 19h30min. Procurei por um hotel e nada. Tentei obter informações com moradores e só ficou mais complicado. Aqui eles falam francês e um dialeto, tudo misturado. Difícil entender. Nestas horas, o idioma faz falta. Eu até tentei aprender um pouco na escola quando adolescente. Mas a professora fazia uns beicinhos para pronunciar as palavras em francês e eu não conseguia prestar atenção naquilo que ela falava, só no beicinho kkkk. Ah... tá, o hotel. Pois bem, não achei hotel e decidi voltar à rodovia por onde entrei na cidade. Aqui o GPS não funciona. Encontrei o Hotel Atlantis em uma rotatória. Eu tinha passado por ele antes, mas achei que fosse um condomínio residencial pois eram prédios separados e de quatro andares cada. Com o portão fechado, o jeito foi interfonar. Depois que me identifiquei, falando inglês, a senhora que me atendeu pelo interfone me orientou a dar a volta no quarteirão, explicando que o estacionamento estava em obras e por isso o portão estava fechado. Assim o fiz e fui recebido por ela no outro portão. Travamos uma conversa e ela disse que a diária custava cem euros e caso optasse pelo café da manhã, seriam mais quinze euros. Salgado demais, resolvi pechinchar falando um misto de inglês, espanhol e português e ela retrucando em inglês e francês. Imaginem o resultado. Depois de alguns minutos ela pronunciou algumas palavras em português, sem sotaque, no meio de uma frase em inglês. Estranhei e pedi a ela que, se falasse português, poderíamos conversar neste idioma pois eu era brasileiro. Qual não foi minha surpresa quando ela disse: "Eu também"! Imaginem a cena. Enfim nos entendemos. Ela é de Londrina, no Paraná. Seu marido brasileiro é militar e foi transferido para a Guiana Francesa. Mas o hotel ainda custou os cem euros. Dormi feito uma pedra. Rodei pouco, cerca de 400 km neste dia. Mas a tensão em sair de um país que não é o seu e adentrar em outro, aliado ao idioma desconhecido, ao trâmite das fronteiras também desgastam. 7º Dia - 23 Jan 2014 - Kourou/GFR - Oiapoque/AP - Tartarugalzinho/AP Por volta das oito horas do dia seguinte eu já estava pronto para seguir viagem.
A poucos quilometros do hotel fica o Centro Aeroespacial de Kourou, base de lançamento de satélites e foguetes da União Européia.
Fui até o local e o Musee de L'Espace que só abriria duas horas depois. Tirei algumas fotos e decidi não esperar, seguindo viagem para a capital Cayenne a 60 quilometros dali.
Meia hora depois já estava passeando pela capital e logo depois rumei para a fronteira com o Brasil. A gasolina aqui é caríssima. Custa 1,66 euros que convertidos para o real, representa R$ 5,60 o litro!
A estrada N 2 estava tão boa, cheia de curvas ótimas para pilotagem que esqueci a conversa com a gerente do hotel. Ela tinha me alertado que pouco depois de Cayenne havia um posto policial na estrada que parava todos que por ali passassem e exigia documentos. Se houve alguma infração, a multa era salgada e cobrada na hora.
Pois bem, esqueci do tal posto policial e quando entrei em uma curva a uns "cento e vinte" por hora, dei de cara com os homens. Vi uma placa em francês que mandava parar e esperar. Parar como a 120? Fui parar do lado da guarita onde dois policiais conversavam com um motorista que vinha em sentido contrário ao meu. Quando passei pela placa, rapidinho entendi que eu tinha que parar lá e esperar o outro veículo ser liberado para só então entrar no canal e chegar no posto policial. Pois bem, eu não esperei. E, enquanto um terceiro policial saía da guarita em minha direção, pensei com meus botões: Lá sem vão meus últimos cem euros. Alterado, o sujeito veio conversar comigo, apontando a tal placa. Nesse meio tempo eu já tinha bolado minha estratégia de defesa. Sabia que tinha feito besteira. Agora, só me restava dar uma de leso, ou desentendido, como queiram, para evitar a multa. Depois dele gesticular e falar bastante no idioma nativo, soltei um "não estou entendendo" em inglês e espanhol (só pra garantir que ele me entendesse). Deu certo. Ele pediu minha ID e entreguei o passaporte. Ele olhou para o passaporte, para mim, que estava com a maior cara de inocente e apontou a estrada desejando uma Good trip.. Nem pensei duas vezes, subi na moto e sumi na estrada. As fotos do local, vou ficar devendo. Tá doido! Já próximo da fronteira, as placas apontavam a direção. Cheguei facilmente na cabeceira da ponte que liga a Guiana Francesa ao Brasil.
Me dirigi até a imigração e recebi a informação que não era ali. Eu tinha que voltar à cidade de Saint George para dar saída no passaporte. E, o policial apontando o relógio, que marcava 11h50 min., disse que o posto fechava ao meio dia e só reabriria as 14 horas. Enquanto subia na moto, ainda pedi a ele se depois poderia voltar e passar pela ponte para chegar ao Brasil e recebi um sonoro: Não. Retornei rapidinho ao centro da cidade e cheguei ao posto da policia de fronteira, onde a policial já estava com a chave na mão para fechar a porta. Gentilmente carimbou o passaporte e eu estava liberado para regressar ao Brasil. Aqui cabe um esclarecimento. No acordo firmado entre o Brasil e a França, ficou definido que cada país deveria construir a estrada, as instalações aduaneiras e a ponte estaiada para só então abrirem as fronteiras sobre a ponte. Pois bem, a França cumpriu sua parte e, do lado deles, está tudo pronto. Contudo, o Brasil (que novidade) ainda não construiu as instalações aduaneiras e ainda precisa concluir o asfaltamento da BR 156 que liga o Oiapoque à Macapá e onde ainda faltam 113 km para serem concluídos. Lá vou eu de novo passear na lama. Muito bem, vamos até o porto para "pegar" a balsa. Nem previsão de quando sairia. A travessia custa 400 euros e se você estiver sozinho, adivinha quem paga esta conta? O jeito foi escolher uma "voadeira" ou pequena lancha a motor para fazer a perigosa travessia subindo o Rio Oiapoque durante quase vinte minutos até o lado brasileiro. Depois de muita pechincha que começou em 80 euros e baixou para 45, fechei o aluguel da voadeira. Faltava os carregadores que queriam 20 euros cada. Contratei somente um por 15 euros e seja o que Deus quiser.
Encostei a motocicleta em uma rampa próximo do rio e com ajuda do catraieiro e do carregador, depois de tirar as malas laterais, colocamos a moto dentro. Subimos o rio e, por ironia, passamos por baixo da bela ponte que está pronta. Falta só dona Dilma cumprir sua parte no tratado. Poucos minutos depois encostamos no pequeno e improvisado porto, lotado de embarcações. Agora, descarregar a moto era outro problema com tantos barcos. Se tirassemos a moto pela lateral, a colocaríamos sobre o barco do lado. O jeito era tirar pela proa. Então lá vou eu contratar mais dois carregadores. Em um bar próximo, fiz a proposta e queriam 20 reais cada para executar o serviço. Ofereci dez e escolhi dois "menos bêbados" e logo depois a moto estava em terra firme e eu, pronto para desbravar o Amapá. Sobre a observação que citei no começo deste post, esclareço: Diversos motociclistas que entram ou tentam entrar na Guiana Francesa, mencionam a grande dificuldade em conseguir o visto para a viagem e a demora que pode representar vários dias de espera. Além disso, fazer o seguro de terceiros exigido por este país é outra barreira. Nenhuma seguradora faz, mas ainda assim, a França exige. Não bastasse isso, há o seguro internacional de viagem que deve ser de no mínimo 30 mil euros. Pois bem, apesar de providenciar tudo, exceto o seguro de terceiros, eu tinha receio que isso pudesse representar dificuldades para entrar na GF. Mas, não tive dificuldade nenhuma, o que me deixou surpreso. Ninguém me pediu nenhum tipo de seguro. Bastou olhar o visto e me liberaram rapidamente. Não precisei fazer a importação temporária da moto. Na saída do país, não me cobraram nenhum documento, além do passaporte. Enfim, correu tudo melhor do que eu esperava. Será que é sinal de novos tempos na Guiana Francesa ou esta minha carinha bonitinha ajudou? Então meus motoamigos, vamos viajar. Incluam o arco das Guianas no seu próximo roteiro, sem medo de ser feliz! Percorri 450 quilometros na Guiana Francesa totalizando até o momento 1.820 quilometros nestes oito dias de viagem.

3 comentários:

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    Grande estos viajeros del tiempo!! yo también viajé por la Guyana Fr. y viví 7 años en el infierno verde!! por eso ese link,contando las experiencias de los "NO TURISTAS"!!!abrazos a todos,,Juan

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